Podemos ser comunidade real no ambiente virtual?
Bem alimentada, saudável e cercada pela constante atenção dos pais, Anima seria considerada uma criança de sorte não fosse pela inconveniência de não existir. A menina, de desproporcionais olhos grandes, é um avatar, personagem de um jogo online chamado Prius, bastante popular, em que é possível inventar uma criança virtual, alimentá-la e vê-la crescer. Enquanto a menina feita de pixels crescia, sua irmã, essa de carne e osso, definhava, aos três meses de vida, por falta de alimentação. Seus pais estavam ocupados demais em cyber cafés e lan houses, jogando em ciclos de 12 horas. Depois de cinco meses esquivando-se da lei, o casal de sul-coreanos foi levado à prisão, no início deste ano, pela morte da filha, que não resistiu à desnutrição. (Fonte: BBC Brasil)
Embora dramático e, felizmente, um caso excepcional, o paradoxo entre o zelo parental empregado a uma criança virtual e outra, real, nos coloca diante de questões, no mínimo, prementes, já que despontam num cenário em que relações reais e cibernéticas confundem-se.
Mesmo cientes de que Anima é produto da mente de designers e programadores, com o objetivo de promover entretenimento e interação entre jogadores, somos provocados, sob o risco de nos perdermos na semântica, a entender o quanto Anima é “de verdade”. Mentimos ao dizer que ela não existe: ela existe, logo, é real; entretanto, como é ficção, pode ser verdadeira?
Com espanto, o mundo recebeu os primeiros Tamagotchis, bichinhos virtuais de traços simples que, do “nascimento” à “morte”, exigiam o cuidado constante de seus donos. Lançado em 1996, no Japão, o brinquedo encantou crianças e adultos e tornou-se “febre” em todo o mundo.
Menos de 15 anos depois, assistimos a uma sucessão de experiências similares, mas avançadas, ao Tamagotchi, nas quais nutrir personagens e despertar o afeto estão presentes. Além disso, é possível criar representações de si mesmo em jogos e redes de relacionamento. Através de seu próprio avatar, o jogador pode experimentar simulacros das ações mais banais e cotidianas, como comer, até ações sem equivalente na vida real, como o teletransporte.
Países vanguardistas em tecnologia, como a Coréia do Sul e o Japão, por exemplo, têm seus “viciados em internet” aos montes. Jogos online e realidade virtual transformam-se em droga e oferecem aos usuários a sensação de fuga diante de vidas insatisfatórias ou frustrantes. Talvez “sensação” seja uma palavra-chave para a compreensão do ambiente virtual.
Em resumo, ambiente ou realidade virtual é uma tecnologia de interface avançada entre um usuário e um sistema computacional, com o objetivo de recriar a sensação de realidade para o indivíduo ao máximo.
Essa realidade ficcional é muito próxima do universo real. Em diversos aspectos, simula a realidade e permite a quem usa encontrar-se com outras pessoas e interagir com elas. É sobre essa interação que caem ressalvas.
Cidades, países e universos virtuais têm o poder de eclipsar nossas relações humanas, tal a possibilidade de manipular que oferece o virtual comparado ao real e já que, assim como pode aproximar as pessoas, também pode distanciá-las.
Frei Betto, em seu artigo “Do Mundo Virtual ao Espiritual”, bem coloca: “Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos”.
Promessas cumpridas versus promessas desfeitas
São muitos os exemplos positivos de aplicação dessa tecnologia de interface; um deles está na educação a distância, que possibilita que a aprendizagem, mediada por tecnologias, congregue professores e alunos separados espacial e/ou temporalmente.
Recentemente, a Campanha Ficha Limpa, que buscou aprovar projeto de lei contra a candidatura dos que estão em débito com a Justiça, colheu mais de 3 milhões de assinaturas através da divulgação feita pela Internet e pelo site do MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral) e de assinaturas compiladas pelo Avaaz, rede de apoio a causas mundiais.
Nos relacionamentos afetivos, a rede também tem seus méritos. A Santo Antônio cabe a fama de “santo casamenteiro”, mas a alcunha tem sido partilhada, em tempos modernos, com a rede social Orkut. Lá, casamentos e amizades, com poucas chances de acontecer em terra firme, foram desenhados e ganharam vida fora da tela.
São notáveis, ainda, as comunidades e portais médicos; as cirurgias realizadas a distância, e a propagação de novos talentos artísticos e literários, por exemplo.
Ao mesmo tempo, propostas feitas insistentemente durante as imersões virtuais são, deliberadamente ou não, abandonadas quando confrontadas no universo offline. Os relacionamentos virtuais são costurados sob o risco das identidades forjadas. David Le Breton, em “O corpo enquanto acessório da presença – notas sobre a obsolescência do homem”, diz que a “a internet é uma magnífica instituição da máscara, que multiplica as identidades sem recear ter de prestar contas”.
Não que o ambiente virtual dê origem – estelionatos aos milhares provam que a dissimulação não é exclusividade do ciberespaço – mas a farsa é facilitada por ser a Internet, ainda, considerada “terra de ninguém”, em que a aplicação das leis torna-se turva.
Vidas paralelas
Em “Modernidade Líquida”, o sociólogo Zigmunt Bauman coloca as novas redes como um agregado de “eus” e enfatiza que, nas promessas de comunidade existente, as dores não se somam. É a essa visão que devemos nos ater para compreender os desafios de ser comunidade real no mundo virtual.
Bauman nos mostra a rede tal como um “supermercado de identidades”, que, múltiplas e fragmentadas, são construídas, reconstruídas e representadas pelos indivíduos de acordo com seus desejos. O ciberespaço dá vazão a um número ilimitado de “vidas paralelas”, que, ao fugir do controle do usuário ou deixar de coadunar a seus interesses, são resolvidas com comandos simples, como o de apagar o perfil.
O jogo online Second Life (Segunda Vida) é um exemplo dessa manipulação permitida ao usuário. O jogador, “encarnado” num personagem que pode ser uma extrapolação de suas qualidades ou defeitos, de acordo com a projeção que faz de si mesmo, pode construir sua casa, formar uma família, participar de atividades esportivas, trabalhar e fazer compras, tudo isso virtualmente. Empresas têm investido em lojas virtuais nesse espaço, em que é possível comprar um produto virtual ou real.
Os ambientes virtuais, apregoados como novas maneiras de sociabilizar, restringem-se, então, à reafirmação dos modelos da sociedade de consumo. No que podemos considerar uma distorção, vale o imaginário ante o real. No entanto, o imaginário converge para o real ininterruptamente. Em realidades simuladas, um avatar pode trabalhar ou exercer atividades lucrativas e receber, por isso, moeda virtual, que será convertida em dinheiro do “mundo real”.
Há, além disso, outro componente presente em redes sociais, que é a sensação de “controle” da vida alheia, já que permitem acompanhar o que o outro está fazendo.
Através do microblog Twitter, por exemplo, o membro pode “seguir” e ser “seguido”, enquanto atualiza suas atividades e pensamentos constantemente.
Ao mesmo tempo, é um exercício de narcisismo, já que uma trama que pode ou não estar em consonância com a realidade é encenada diante do olhar público, seja um olhar de perscrutação ou admiração. A vida pode ser “editada” através da escolha do que se publica.
O usuário pode, por exemplo, postar que está lendo “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, para sugerir um perfil intelectual, como gostaria de ser visto, quando está, de fato, assistindo a um reality show, pela TV. Mas é somente pelo olhar do outro que nos encontramos?
Nem só de superficialidades vivem, contudo, sites como o Twitter. Facilmente acessado e pela estrutura de mensagens curtas, ele possibilita a transmissão veloz de mensagens também de interesse geral, aproxima pessoas com interesses comuns e integra-se a outros aplicativos. É possível, por exemplo, enviar mensagens para o Twitter pelo celular.
Blogs: como usamos as novas ferramentas?
Os blogs (de Web Log) foram concebidos como diários, cuja estrutura permite atualizações rápidas e cronológicas de emoções, fatos, opiniões etc. De utilização simples, todos podem, hoje, ter seus blogs na web, mas nem todos são confiáveis como fonte de informação.
Se as ferramentas apontam para a democratização da comunicação, os blogs, em especial os católicos, devem estar atentos para não caminharem no sentido oposto, tornando-se expressão do individualismo. É preciso estabelecer diálogos para a responsabilidade dessa comunicação e potencializar forças, combatendo o que nos lembra Bauman: o “nós” que não passa de um agregado de “eus”. Novas mídias representam novos desafios, mas o desafio de trabalhar em conjunto é atemporal.
Antes de criar incontáveis blogs, e são tantos que já existem blogs especializados em compilar outros blogs católicos, vale a reflexão sobre os objetivos que se almeja atingir com aquela comunicação.
Os jovens, protagonistas na Internet, devem ainda estar atentos para uma outra pergunta: o blog ou comunidade virtual atende certas exigências missionárias?
Não há respostas prontas. Elas são construídas enquanto tentamos entender as conseqüências das novas tecnologias – e das novas relações que propõem – em nosso meio. O debate parece ser o caminho: colocar a democracia em prática através da razão comunicativa, em que discurso e ação sejam coerentes.
Se os mesmos ambientes que permitem aproximar, podem afastar, cabe a nós fazer deles o uso mais construtivo, encarando as novas tecnologias como ferramentas e não como fins em si mesmas. Em muito o ambiente virtual pode nos ajudar enquanto fortalece os vínculos de comunidade, levando para o online as discussões e temáticas da coletividade, criando um ponto de convergência que supera as limitações geográficas. Mas só é possível ser comunidade se houver engajamento verdadeiro.
Temos muito a aprender sobre o uso das novas tecnologias: blogs de orações criados por sacerdotes, web rádio, velários virtuais e cursos de formação a distância estão aí, ao alcance do mouse. No mais, em um ambiente permeado por tantas promessas desfeitas, sordidez e pornografia, é um alento saber que ainda é possível apresentar Jesus Cristo e propagar o Evangelho.
Arquidiocese de Campinas e mundo digital
Diz a mensagem do papa Bento XVI para o 44º Dia Mundial das Comunicações Sociais, “O sacerdote e a pastoral no mundo digital: os novos media ao serviço da Palavra”: “Hoje, para dar respostas adequadas a estas questões no âmbito das grandes mudanças culturais, particularmente sentidas no mundo juvenil, tornaram-se um instrumento útil as vias de comunicação abertas pelas conquistas tecnológicas…
Contudo, a divulgação dos ‘multimedia’ e o diversificado ‘espectro de funções’ da própria comunicação podem comportar o risco de uma utilização determinada principalmente pela mera exigência de marcar presença e de considerar erroneamente a internet apenas como um espaço a ser ocupado”.
Nossa vocação, enquanto Igreja, não se resume a simplesmente ocupar os espaços criados pelos novos meios de comunicação, mas em estar entre nossos irmãos também através das novas tecnologias, ao alcance, como presença acolhedora e pacificadora, presença que mobiliza, provoca e que propõe a Boa Nova, nos tempos de hoje e em tempo real.
Links para saber mais sobre os assuntos abordados:
www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R1207-1.pdf
www.acessa.com/negocios/arquivo/economia/2007/03/17-second
www.tamagotchi.com
WWW.blogscatolicos.blogspot.com
Bárbara Beraquet
Jornalista especializada em Gestão Estratégica da Comunicação e Editora Assistente da Revista A tribuna, da Arquidiocese de Campinas.