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03/04/2017

A Espiritualidade da Páscoa

Por João Paulo, ssp

Refletir sobre a realidade pascal traz consigo um sentimento de “esplendor que reina em toda parte”. Mas a experiência pascal desde os seus primórdios está permeada pela ação de Deus na história, e muitas vezes essa ação não é propriamente a mais alegre; no entanto, é uma das mais fortes experiências de Deus.

O sentido pascal tem um início muito mais longínquo que propriamente os relatos do Êxodo. Em um relato um pouco mais teológico, podemos entender que Deus criou-nos para estar envolvidos pelas belezas e alegrias, ou seja, nos criou para o paraíso (cf. Gn 1-2). Todo êxodo humano começa no pecado de Adão, que resulta na expulsão do paraíso. Mas que erro é esse que é capaz de afastar o homem de Deus? Vejamos pelo lado um pouco mais simples. Deus nos fez à sua imagem e semelhança, ou seja, nos fez parecidos com Ele. No entanto, a serpente queria convencer Eva de que, comendo do fruto, ela e seu esposo seriam iguais a Deus (cf. Gn 3,5). Adão aceita a proposta da serpente e come, aquilo que foi proibido pelo Senhor. Esse ato é chamado de “O Pecado Original”. Adão pecou por soberba e se afastou de Deus e do Paraíso por não conseguir afastar-se da culpa, para a humanidade restou apenas a triste desolação, a humanidade ficou “ferida” e “escrava”.

Toda a experiência pascal está envolvida por um grande êxodo, principalmente, na passagem do Egito, onde o povo é escravo do Faraó e consegue por meio do seu clamor alguém que o guiaria de volta para a Terra Prometida. Deus vê a miséria do povo e quer dar a eles a liberdade e a dignidade necessária (cf. Ex 3,7). Porém, antes de estarem libertos, o Senhor lhes ensina a fazer um memorial da libertação do Egito; para isso ficou definida a ceia pascal, onde se matava o cordeiro, comiam as ervas amargas, o pão sem fermento e pintavam a porta com o sangue do animal sacrificado (cf.Ex 12, 7-8). Esse é o ponto forte celebrado pelos judeus e que posteriormente será celebrado com Jesus, na noite da quinta-feira santa. É possível ver que a alegria pascal surge depois de uma grande repressão e dificuldade.

A experiência pascal de Cristo é concebida pela dor e pelo sofrimento. Ele é o redentor do gênero humano e deu perfeita glória a Deus; principalmente, ele é o novo cordeiro pascal, o único sacrifício: Ele morre para destruir a morte e ressuscita para restaurar a dignidade que nos foi tirada por Adão e que por causa dele fomos impedidos de entrar no paraíso (Gn 2,24). Quando o Cristo faz a sua entrega total, ele desce à mansão dos mortos; em uma homilia antiga do século IV, publicada sempre no oficio das leituras do sábado santo, se diz: “Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos”. Cristo vai a este lugar para livrar a todos os que morreram antes de sua promessa e de sua Nova Aliança, chama-os para a luz e diz aos cativos: “Saí”.

Durante o Exultet (Proclamação da Páscoa), há um trecho que diz: “Ó pecado de Adão indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor; ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor!”; esta é a imagem de Cristo, que assume a natureza humana e se entrega humildemente, diferenciando-se de Adão, soberbo. Cristo anula a culpa de Adão por sua entrega e nos reintegra ao paraíso que havíamos perdido. Aproximemo-nos deste mistério com amor e com grande coragem de anunciar o nosso Salvador e ser testemunhas vivas do Ressuscitado, que venceu a morte para nos dar vida em abundância.

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