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28/03/2017

Misericórdia, o rosto humano de Deus

Por Pe. Roni Hernandes, ssp

O tema da “misericórdia” nunca foi tão falado como nos dias de hoje. O papa Francisco, além de ter proclamado o “Ano Santo da Misericórdia” em 2016, também tem ressaltado em todos os seus discursos a importância da misericórdia em nossa vida. Mas, o que é ser misericordioso? Ser misericordioso é olhar para as situações que acontecem à nossa volta com as lentes de Jesus. É ter a mesma postura que Jesus teve de se aproximar do outro não numa atitude de condenação, humilhação, discriminação, mas numa atitude de aproximação e de escuta sincera.

Ouvir os sofrimentos das pessoas, acolher aqueles que se fecham em si mesmos, acalentar os corações machucados, são gestos simples, mas carregados de misericórdia. É nessas ações que revelamos às pessoas o rosto misericordioso de Jesus. Na verdade, esta foi a missão que recebemos do Pai desde o nosso batismo: ser caridoso, compreensivo, generoso, acolhedor, etc., mas antes de qualquer coisa, nosso primeiro dever é ser misericordioso para com os nossos irmãos.

A experiência mostra que o exercício da misericórdia trouxe bons resultados para a nossa vida, dentre eles, a capacidade de perdoar. Sabemos que não é fácil perdoar alguém que nos fez tanto mal, mas a experiência da misericórdia cura as mágoas interiores e transforma as nossas relações em verdadeiros toques de humanidade. Tudo isso é utópico e tem dificuldades para se concretizar de maneira completa, mas nem tudo está perdido.

Sabemos que a modernidade está transformando as relações humanas, sobretudo entre os mais jovens. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, “vivemos numa sociedade onde nada mais dura, tudo é liquido e se desfaz com demasiada rapidez”. O que se percebe é que as pessoas não querem mais criar vínculos, nem mesmo de amizade. Com isso, as relações se tornaram mais frias e calculistas e menos verdadeiras e admiráveis aos olhos de Deus. Há uma inversão de valores, onde o outro é coisificado e a máquina (meu celular) é humanizada.

Podemos perceber os reflexos disso quando passamos pelas ruas de nossas cidades. Ignoramos um bom dia, um abraço, um aperto de mão, os que querem uma informação ou conversar, os pobres, os que têm fome e sede de justiça, etc. Na verdade, damos as costas para aqueles que estão necessitados de amor. É aí que a misericórdia faz a diferença: tocando, abraçando, acolhendo, conversando, orientando as pessoas que vêm ao nosso encontro. Tudo isso são gestos que Jesus praticou durante toda a sua vida pública e que mostraram que a sua missão é portadora de vida plena.

O papa Francisco tem criticado constantemente essa postura: “Com frequência somos cristãos muito áridos, indiferentes, distantes, e ao invés de transmitir fraternidade, transmitimos mal-humor, frieza e egoísmo”. Todos os dias jovens depressivos, famílias desestruturadas, problemas pessoais mal resolvidos, angústias, sofrimentos e dores são compartilhados por pessoas de todos os níveis sociais. O nosso olhar em relação a essas pessoas deve ser um olhar misericordioso que nos ajuda a ultrapassar as questões sociais e financeiras, e focar apenas no humano.

Iluminados e inspirados pela misericórdia de Deus, saibamos sempre nos colocar à disposição do outro com total abertura. Que a nossa atitude não seja para julgar, condenar, escravizar, diminuir ou expor o próximo, mas que seja para levar uma palavra amiga capaz de transformar as dores, as angústias, os problemas e as dificuldades do dia a dia. Na vida, somos os primeiros em tudo quando compreendemos que devemos ser verdadeiramente bons para os outros. Pense nisso!

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