Institutos de vida secular consagrada: fermento na massa do mundo

Por Luciano Cian, em “Se vuoi”

A vocação do leigo consagrado é do nosso tempo e para o nosso tempo que necessita de homens e mulheres comprometidos. O leigo consagrado vive no mundo, unindo fé e história, temporal e eterno, graça e natureza. Sua tarefa consiste em dar vida e renovar em Cristo as realidades terrenas, aproximando fé de cultura.
Muitos de vocês já ouviram certamente falar dos “Institutos Seculares”, ou “Instituto de vida secular consagrada”, da “vocação à secularidade consagrada”, especialmente depois de um encontro com pessoas que vivem essa opção de vida. Um Instituto de vida secular é como um “laboratório de pesquisa”, no qual a Igreja verifica as modalidades concretas de suas relações com o mundo. “Sua tarefa primária consiste em pôr em prática todas as possibilidades cristãs e evangélicas, ocultas sim, mas presentes e operantes nas realidades do mundo. O campo próprio de sua atividade evangelizadora é o vasto e complicado mundo da política, da realidade social, da economia, das ciências e das artes, da vida internacional, dos instrumentos de comunicação social” (Paulo VI).
Trata-se de opção que um adulto faz, para realizar-se no mundo, depois de ter examinado muitas propostas e as ter excluído, para centrar-se em Cristo e no seu evangelho. Em outras palavras, a pessoa sente que o mundo pede justiça, diálogo, participação, solidariedade, paz e amor; necessita de pessoas capazes de se arriscarem por esses valores e de se consumirem pelos outros; que a vida centrada em Cristo e totalmente entregue a ele, mediante os conselhos evangélicos, permite responder melhor às necessidades do mundo e compartilhar a vida com os outros, mais radicalmente, a cada dia e com a máxima responsabilidade.
Vivemos uma situação especialmente difícil no plano cultural e ético. A separação entre cristianismo e homem, entre fé e vida, a ameaça que sofre o antigo tecido de valores humanos e cristãos, e a extensão do fenômeno do ateísmo, da indiferença religiosa e ética constituem os principais motivos da crise de nossa sociedade, que atravessa um momento de transição cultural muito profundo e crítico. “É a primeira vez na história que uma geração enfrenta a existência sem referência a nenhum valor” (A. Malraux).

O leigo consagrado: para construir “a cidade do homem”
Esta geração está franqueada pelo espírito de independência. Estamos na era das “liberações” e da intolerância diante de tudo o que limita e restringe a liberdade. Pela pretensão de inocência: nada é mau, o mal está fora da pessoa, na sociedade e nas estruturas que ela fabricou para si. Pela criatividade: como repulsa às normas e à herança do passado, aos valores que impedem a satisfação espontânea das necessidades. Pela curiosidade: entendida como repulsa à firmeza nos compromissos e na palavra dada, porque se quer ver tudo, saber tudo, provar de tudo em função das necessidades pessoais, em torno das quais o mundo deve girar.
Tudo isso conduziu o homem de hoje à situação de confusão e fragilidade cultural, rumo ao fatalismo e ao pragmatismo eficientista; rumo a uma cultura de massas na qual domina o individualismo, o hedonismo e o culto do bem-estar, a repulsa a qualquer tipo de norma e a qualquer dependência sem limites diante das “modas”.
É preciso optar: ou a cultura como lugar da tomada de consciência e da comunicação como conjunto de valores que favorece o crescimento integral e pleno do homem; ou a cultura como instrumento do sistema industrial que faz do homem objeto/sujeito de produção e de consumo, peça manipulada pelos poderosos, pelo dinheiro, pelos partidos e classes dominantes.
A finalidade da cultura autêntica é a “cultivação”, a educação do homem, sua realização, a “plenificação do humano”, a conquista da liberdade interior e espiritual mediante o conhecimento da verdade e a retidão do querer e do amar. Não são apenas as grandes figuras do pensamento, da arte e da ciência que fazem a cultura, mas também, e talvez de maneira mais incisiva, os santos e as testemunhas, os homens e mulheres que vivem a perfeição do amor e por ele orientam a humanidade pelo caminho de sua plena humanização.
O cristão que opta por viver evangelicamente no contexto das realidades profanas, empenhando-se segundo o estilo próprio de um Instituto de vida secular, assume a cultura como valor “leigo”. Trabalha com os homens de boa vontade para construir a cidade terrestre, faz suas as duas vocações fundamentais da razão humana: a busca da verdade e a submissão técnico-material do cosmos, vivendo a segunda de maneira subordinada à primeira, para manter a ciência, a política, a economia… abertas ao horizonte da totalidade e ao mistério metafísico do ser (cf Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 53, 59).
Esse testemunho “leigo”, historicamente situado e pertencente ao temporal, às vicissitudes do homem que trata de compreender-se a si mesmo e sua posição no mundo de modo racional, fica iluminado por uma inspiração, por um relâmpago espiritual que fecunda e sublima a cultura. Através da presença mediadora de uma pessoa que tenha seu “ser” centrado em Cristo e viva os valores terrenos, o humano, o histórico, o mutável, o natural, o progressivo, se põe em relação com o divino, com o eterno, com o infinito, com o mundo da graça que cura, eleva e aperfeiçoa a natureza, inserindo nela um fermento divino e levando-a até aonde não poderia chegar sozinha.

Para criar ponte entre as duas margens do homem
A cultura é um valor terreno e “leigo”, por isso não tem a finalidade de conduzir o homem à vida eterna. Esta é tarefa da Igreja, sacramento da salvação. Deve é constituir uma vida histórica, humanamente plena e realizada, até o ponto de abri-la para o encontro com Deus e para a salvação total do homem: de seu corpo e de seu espírito, no aqui e agora histórico e para além da morte. Essa difícil e delicada tarefa necessita de atenções especiais.
* Da pessoa consagrada, chamada a viver em meio às realidades temporais, se exige profundo esforço para conhecer o homem, sua vida histórica e as estruturas que a definem e nas quais se desenvolve, para compreendê-la, interpretá-la e realizá-la no modo mais humano possível. O testemunho consagrado caminha ao lado de todos os que se ocupam do processo de libertação progressiva do homem. Este, com suas próprias forças, pode construir para si um mundo melhor, mesmo sabendo que entre ele e o mistério do ser existe mediação, hermenêutica sem fim, esforço animado pela esperança imortal de chegar além de si mesmo, até este fim ao qual é possível dar com segurança o nome de Verdade, certeza total. O homem se move nesse anseio de humanização cada vez mais completa da práxis, com uma inspiração que nasce do evangelho, da luz de Cristo, em harmonia entre ação e contemplação. Contemplação que transborda na ação, na mais solícita atenção ao mundo e à história em todas as suas formas, no esforço de realizar a unidade entre a vida e o compromisso civil, a espiritualidade, a pesquisa filosófica e teológica, a arte e todas as formas do saber científico.
* O cristão filósofo, político, científico, funcionário ou trabalhador, faz cultura, vive seu acontecimento histórico junto de outras pessoas que fazem as mesmas coisas com inspirações diferentes e quadros interpretativos e ideológicos também diferentes. E deve conhecê-los e apreciá-los, praticar o discernimento para dialogar e participar na caminhada que fazem juntos para construir a humanidade nova, a história nova, com a dialética de comunhão mais que com a dialética de força e poder. No diálogo e na confrontação, é possível verificar a medida em que as diversas propostas culturais são integráveis numa perspectiva plena de sabedoria cristã. Em toda cultura existem porções ou intuições isoladas admissíveis, embora no conjunto suas perspectivas continuem sendo imanentistas e ateias. Pensemos, por exemplo, no marxismo-leninismo, no positivismo, no liberalismo etc.
* A terceira e difícil atenção é a síntese que o consagrado deve ser capaz de realizar dentro de si mesmo e na busca de mediações que o ajudem a viver a materialidade de sua existência, o trabalho, a produção, as relações econômicas, considerando tudo como dirigido a Deus e em relação com o bem comum, para conquistar, junto com os outros homens, níveis crescentes de libertação. Esta síntese não é fácil, especialmente para quem separa entre fé e cultura histórica. Para conseguir a síntese, não importa a separação, mas o caráter da diferença. A separação leva a dar a cada disciplina, a cada atividade, seu campo de ação, seu método próprio, sem outras interrogações sobre o possível significado que possam ter. Por isso, os valores religiosos ficam excluídos do horizonte do saber científico ou são assumidos de forma arbitrária, ideológica, ou esquecidos e não considerados, uma vez que a fé e a ciência se ignoram reciprocamente, como se fossem inimigas. Por outro lado, o caráter da diferença, ou seja, a distinção, respeita o método, o campo e o objeto de qualquer ciência e de qualquer atividade, nos conserva viva a necessidade de buscar o possível significado unitário do saber e do agir, de modo que ambos os universos do saber científico-racional-fenomênico e filosófico-teológico se unifiquem no coração do homem. Os mundos culturais brasileiros são bem fechados a esta síntese e pecam por reducionismo político, econômico, sociológico e psicológico, ou por politização radicalizada. Uma cultura que segue por este caminho, fica pobre na arte, na poesia, na literatura e nas intuições profundas, sem esplendor e sem grandeza, ao obscurecer-se o fulgor espiritual. Pelo contrário, o leigo consagrado assume os meios e as expressões técnicas, deposita neles os conteúdos que brotam da riqueza de seu ser humano, deixa que se difunda o resplendor das intuições internas, nas quais circula a graça criativa. A síntese final elabora o amor na perspectiva de uma nova comunhão. Muitos pensam que esse modo de se situar na cidade do homem é “a-histórico”, ou que seja eficaz apenas em pequenos grupos, porém ineficaz para toda a civilização. Na verdade, Jesus Cristo, a Palavra de Deus, veio dizer que para refazer a história é necessário justamente o amor com a revolução levada a cabo pelo amor. Nossa cultura tem enorme necessidade de tudo isso para superar o estancamento em que se encontra e inventar novas mediações, para que a grande massa perceba que Deus existe, que se pode amar ao homem sem nada tirar a Deus, e amar a Deus enriquecendo o homem.

Para encontrar Cristo e encarná-lo na cultura
O leigo consagrado, justamente por viver imerso nas realidades terrenas, se encontra diariamente com os diversos tipos de pessoas na cultura de nossa sociedade, que os novos mestres de valores sem vitalidade anunciam.
Pensemos, por exemplo, no homem pragmático, que só quer “atuar” mediante a “techné” técnica, que é a expressão mais entusiasta da sua racionalidade; no homem idealista, que exalta os valores, mas os situa num céu abstrato até o ponto de esvaziá-los de conteúdo, por serem historicamente irrealizáveis; no homem existencialista, que tem desejo ardente de ser ele mesmo, independente de qualquer outra referência transcendente; no homem niilista, que crê na fonte de violência que é a não-existência da verdade, para esse o único fundamento de tudo é a própria ânsia de poder, para além da qual só existe o nada absoluto; no homem estruturalista, determinado pelo “caso”: é um efeito especial de uma combinação de elementos, absorvido na massa e pela massa; no homem católico-marxista, que vive uma fé que não respira, afogado pela “memória histórica” e totalmente centrado no empenho político como caminho para conseguir o bem-estar material.
O cristão, e de modo muito especial o leigo consagrado, é o quem deseja estar “todo inteiro” dentro do mundo. É alguém que se abre para a busca de sentido e deixa espaço para a conversão do coração, para não cair em racionalizações tranquilas; vive o entrelaçar-se das realidades infelizes, misérias e experiências negativas, e as esperanças de liberdade, salvação e felicidade humana. Toma com seriedade o “humano” como lugar no qual busca e encontra Deus e o homem; desenvolve solidariedades cada vez mais estreitas que irmanam e suscitam confrontações, projetos e intercâmbios que condizem com a humanização e plenitude do homem; compromete-se com a salvação total: corporal e espiritual, mundana e ultramundana, temporal e eterna. Vive a continuidade entre “de onde vem” e o “para onde vai”, entre a memória e a imaginação, entre o patrimônio de verdades acumulado pelos antepassados e as esperanças que vão ao encontro do futuro, a fim de construir morada mais adequada para a verdade e para a liberdade.
Aquele que crê e o consagrado vivem no coração do mundo o encontro com a Palavra, principal recurso da cultura. Através dela, abre-se à frente o horizonte da verdade, pela qual conduz a vida entre as névoas da dúvida, entre as areias movediças da inquietação, e atinge algo seguro, apoiando os pés na rocha de um ideal. O homem descobre toda a sua verdade em Cristo. Nele foi curado e nele pode vencer a tentação do medo em face a Deus. O medo de que Deus tenha inveja do homem não é admissível, a partir do momento em que Cristo é a insuperável revelação do amor até à morte. Em Cristo, a pessoa humana é salva, porque devolvida à verdade original. Sua existência, individual e social, volta a “re-enxertar-se” em sua raiz, revivificada por sua fonte.
Para encarnar esse humanismo cristão através da cultura, o consagrado no Instituto de vida secular deve ser culturalmente honesto, pobre, humilde na busca, ativo, comprometido, autêntica testemunha que traduz com seu ser, com sua palavra e com suas opiniões essa síntese entre fé e cultura, síntese que atuou em seu interior, no campo da realidade familiar, social, econômica, política e eclesial.

Conclusão
Não é fácil compreender a vocação de um leigo consagrado e é difícil vivê-la. Contudo, constitui testemunho sublime de que Deus é o centro do homem; de que a pessoa possui dignidade inalienável; de que a cultura respira quando dá vida a uma sabedoria aberta, progressiva, desejosa de acolher qualquer centelha de verdade na casa comum do ser. Ele vive no mundo sem separar fé e história, eterno e temporal, os princípios da natureza e da graça, embora os distinga por serem complementares. Vive sustentado pela graça, através da qual está enxertado em Cristo e na Igreja. Constrói a nova história sobre as dimensões da gratuidade, do compromisso e da contemplação. Sua cultura encontra unidade na síntese entre conhecimento científico, reflexão, compromisso concreto e experiência mística, deixando que seu coração de carne bata em uníssono com o coração do mundo. Porque, pela graça, concentrou a vida no empenho de revivificar e renovar em Cristo as realidades terrenas, aproximando fé e cultura, cultura e fé, de maneira criativa, pessoal e comunitária, com estilo de vida evangélico, ou seja, livre do domínio e ânsia do ter.
A vocação do leigo consagrado é a vocação do nosso tempo e para o nosso tempo, em que se necessita de homens e mulheres culturalmente comprometidos e abertos, desejosos de preparar para a cultura novos canais de expressão, com duas atitudes básicas. Em primeiro lugar a fidelidade, que implica em não se deixar submergir pelos modismos e dizer o que se pensa, despojando-se do acanhamento de ser alguém que crê e que exerce influência sobre muitos. Em segundo lugar, abertura para tudo o que vai acontecendo e que esteja de acordo com a verdade, a beleza, a liberdade, a justiça, a paz e o amor. Fidelidade e abertura, dois grandes dons que Deus, manifestado em Cristo, concede aos homens como meta a perseguir e viver.

Para informações, dirigir-se a: Institutos Paulinos – Via Raposo Tavares, km 18,5 – 05576-200 – São Paulo – SP — institutospaulinos@paulinos.org.br

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