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06/09/2021

A Bíblia desinstala

Por Pe. Darci Luiz Marin, ssp

 

 

Neste mês de setembro celebramos o jubileu de ouro do Mês da Bíblia no Brasil.

A Bíblia reúne experiência humanas acumuladas ao longo de muitos séculos. Tais experiências, à luz da fé, foram codificadas em épocas específicas. Desde os mais remotos tempos o que distingue a Palavra é a preocupação com o ser humano “criado à imagem e semelhança de Deus” (cf. Gn 1,26). Como tal, todo ser humano tem o direito por natureza a viver com dignidade. Quem despreza ou diminui uma pessoa, afronta a Deus.

Os profetas foram particularmente incisivos na defesa desse princípio. Sempre que necessário, não temeram em denunciar as afrontas à dignidade das pessoas, em sintonia com o conteúdo da Aliança feita entre Deus e seu povo.

Chegando à plenitude dos tempos, a Bíblia testemunha – nas palavras do apóstolo Paulo – que “Deus nos enviou seu Filho” (cf. Gl 4,4). O programa de vida abraçado por Jesus, em comunhão com o profeta Isaías, aponta: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para liberar os oprimidos…” (cf. Lc 4,18).

Em que consiste uma Boa Notícia para quem é pobre? É, primeiro de tudo, receber o anúncio de alguém que lhe garanta: “você vai sair da situação de penúria em que se encontra e passará a viver com dignidade”! A Palavra que Jesus faz sua é Boa Notícia que humaniza, em situações concretas, a partir de quem ficou para trás. Essa herança foi confiada a quem decidiu fazer suas as Palavras do Mestre.

Ao longo da história do cristianismo também houve incorrespondências da parte de quem se dispôs levar adiante o legado de Jesus. Episódios de sombras suscitados por falsos mensageiros da Palavra desencadearam péssimas notícias aos pobres.

Evento importante para a retomada das fontes da Palavra está no Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). A luz trazida pelo Concílio, especialmente com a Dei Verbum, fez com que surgissem os primeiros movimentos do Mês da Bíblia no Brasil (1971). O percurso, portanto, é feito há 50 anos. Ao longo desse trajeto a Igreja no Brasil fez grandes progressos, marcando efetiva presença junto aos pobres, tal qual o Evangelho requer. Exemplo concreto e relevante, nesse sentido, foi o lançamento oficial (pela Paulus) da Bíblia Edição Pastoral (1990).

De uma compreensão de “evangelização” como catequese, proselitismo ou doutrinação, passou-se à preocupação com as amarras que mantêm prisioneiras as pessoas. Como recomenda o Papa Francisco: a evangelização requer preocupação com a terra, o teto, e o trabalho que dignificam as pessoas (cf. FT 127). O Concílio Vaticano II trouxe referenciais menos legalistas e mais bíblicos: a preocupação de quem evangeliza passa a estar na atenção à dignidade do ser humano, a partir do mais fragilizado. A pandemia veio explicitar ainda mais o que estava submerso: a pobreza, a desigualdade social, o desemprego, a falta de acesso à educação e à moradia… “Da crise não se sai sozinhos: sairemos juntos ou não poderemos sair” (Papa Francisco).

Ainda que em tempos de estímulos ao devocional e aos fundamentalismos, somos chamados a resistir e reconhecer “a conexão íntima entre evangelização e promoção humana” (EG 178), uma vez que “à medida em que Deus consegue reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, justiça e paz, de dignidade para todos” (EG 180).

Vem a propósito lembrar, neste jubileu do Mês da Bíblia, o testemunho de Paulo que foi a Jerusalém para conferir com Pedro e os outros apóstolos se estava no rumo certo em sua missão. Afirma Paulo; “Eles pediram apenas que nos lembrássemos dos pobres, e isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado” (Gl 2,10). A opção pelos pobres é o eixo motor da Palavra de Deus! O resgate à leitura sem filtros da Palavra desafia-nos. Jesus veio anunciar a Boa Notícia aos pobres e sofredores. E nós?