Blog

15/07/2019

A vida é curta

Por Manoel Gomes, noviço paulino

A vida é passageira. Por mais que se repita essa frase, parece que não conseguimos compreender o seu verdadeiro sentido.

Quando nos deparamos com a morte de um parente ou amigo, essa realidade se concretiza de modo chocante e avassalador. Como é possível que alguém sempre presente na nossa vida simplesmente não esteja mais em nosso meio? Essa não é uma pergunta confortável, tampouco simples de se responder. Mas é ela, sem dúvida, que habita nossos corações quando nos despedimos de alguém que amamos.

Somos finitos: esse é o primeiro elemento que devemos ter em mente ao enfrentar essa questão. Somos seres finitos com sede do infinito. Essa sede, não será jamais saciada neste mundo. “Fizeste-nos, Senhor, para vós” disse Santo Agostinho. Fomos criados por Deus e para Ele e somente nele seremos plenificados. A consciência de nossa finitude permite-nos enfrentar momentos de perda com maior serenidade e confiança.

A morte não é o oposto da vida. Não podemos pensar desse modo. A morte faz parte do ciclo vital, não apenas do ser humano. Como bem nos lembra o personagem Chicó no filme O auto da compadecida: “tudo o que é vivo morre”. Assim como nascemos, crescemos, envelhecemos… também morremos. E a morte não é apenas aquele último momento. Morremos um pouco todos os dias. Não apenas biologicamente falando, mas em diversas dimensões de nossas vidas. Quando, por exemplo, decidimos mudar de país e começar uma vida nova, muitas pessoas morrem para nós e nós para elas. A morte não é, insistimos, o fim (entendido como término) da vida. Lembremos que, para os cristãos, “a vida não é tirada, mas transformada”.

A fragilidade humana, o mau uso da liberdade, a maldade, tristes acasos e outros elementos nos põem diante de realidades ainda mais duras e penosas. As fatalidades nos deixam desnorteados porque, diante delas, não encontramos explicação. Não podemos acreditar que Deus quis que acontecesse tal coisa. No entanto, a nossa condição e as circunstâncias em que vivemos podem produzir tais situações. Nestes momentos, sem deixarmos de expressar nossa dor, o silêncio é a melhor ajuda. Ele nos proporciona um encontro com nosso eu mais íntimo e com a vida como ela é. Aqueles que estão próximos devem pensar nisso. A presença é importante; as palavras, não.

O momento da separação tem muito a nos ensinar. Não apenas em relação ao modo de lidar com a morte, mas também como viver bem cada momento de nossa vida.

Cada vez que nos despedimos de alguém pode ser a última vez que o vemos. Embora sempre pareça que não, pode ser!

Por isso a necessidade de aproveitar ao máximo cada momento ao lado das pessoas que amamos. Que não deixemos para o futuro coisas que poderíamos viver ou dizer no hoje de nossas vidas. Expressemos nosso amor por palavras e ações. Que as pessoas se sintam, de fato, amadas por nós. Que possamos perceber as pessoas que realmente fazem questão de nossa amizade e companhia e com elas construamos a nossa história. A vida é muito curta para vivermos mendigando atenção.

(Em memória do amigo Alexandre Schiavinin, seminarista paulino)